Os heróis antigos não desapareceram — foram silenciados
Ao longo da história, a humanidade sempre precisou de heróis. Figuras como Hércules, Aquiles ou Ulisses não existiam apenas para entreter; eram símbolos que davam forma à coragem, ao risco e ao espírito de descoberta. Eram exemplos que elevavam o olhar dos povos para algo maior do que a vida comum. Representavam força, resiliência, astúcia e sacrifício — e, durante séculos, moldaram a imaginação coletiva.
Hoje, quase ninguém diz que o seu herói é um semideus da Antiguidade. Não porque essas figuras tenham perdido valor, mas porque perderam presença. Vivemos numa era onde a atenção é o maior palco, e o palco mudou de lugar. Os mitos antigos deixaram de circular no quotidiano, deixaram de estar na superfície da mente das pessoas e, silenciosamente, foram substituídos por novas figuras: não heróis épicos, mas pessoas comuns com grande visibilidade digital.
O herói deixou de ser alguém que representa o impossível e tornou-se alguém que representa o acessível. Antes, admirava-se uma figura inalcançável. Agora, admira-se alguém que parece próximo, real, humano, alguém que publica, fala, aparece e vive num ecrã. A escala mudou — e, com ela, o impacto psicológico também.
Os jovens já não procuram deuses que enfrentam monstros; procuram humanos que enfrentam algoritmos. O que se admira hoje é a notoriedade, não a epopeia. E isso transforma profundamente aquilo que entendemos como “inspiração”.
Na verdade, os heróis antigos não foram derrotados por falta de grandeza, mas por falta de presença no novo espaço onde a atenção humana vive: as redes sociais. Tornaram-se silenciosos num mundo que só ouve quem se repete, quem aparece, quem ocupa espaço visual constante. Num ambiente assim, aquilo que não se vê deixa de existir. E o mito, para sobreviver, precisa de circulação.
A consequência é simples: sem visibilidade, até os maiores heróis da humanidade se tornam memórias distantes. As redes sociais não mataram os mitos — apenas criaram um sistema onde o herói precisa de existir digitalmente para continuar vivo na imaginação coletiva. A figura inspiradora continua a ser necessária, mas alterou a sua forma. Hoje, quem ocupa esse papel já não é construído pela tradição oral, pela poesia ou pela lenda, mas pela repetição diária no ecrã.
Os deuses antigos foram substituídos, não porque deixaram de ser grandes, mas porque deixaram de ser vistos.
E na era digital, tudo o que não se vê, desaparece.
Nota:
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