Emancipação intelectual no século XXI: pensar por si na era da IA
Pensar por nós próprios é emancipação — dizia Kant.
Mas então isso significa que não podemos estudar filosofia, matemática, ciência ou história?
Significa que não podemos ler livros, ouvir professores ou pesquisar na internet?
Significa que só somos livres se não aprendermos com ninguém?
Se fosse assim, o Iluminismo seria uma contradição.
Como forma alguém a sua própria opinião… sem aprender primeiro?
Como desenvolve pensamento crítico… sem conhecer ideias diferentes?
Como amadurece intelectualmente… se começar do zero em tudo?
A verdade é simples:
A emancipação intelectual nunca esteve na ausência de ferramentas.
Esteve sempre na forma como as usamos.
A menoridade não é usar apoio.
É abdicar do juízo.
Não é consultar.
É obedecer sem pensar.
Não é aprender.
É repetir sem compreender.
Hoje, com a inteligência artificial, acontece exatamente o mesmo fenómeno que aconteceu noutras eras com outros instrumentos:
Quando surgiram livros → disseram que iriam destruir a memória.
Quando surgiram calculadoras → disseram que iriam destruir a matemática.
Quando surgiram computadores → disseram que iriam destruir a escrita.
Nada foi destruído.
Tudo foi transformado.
A diferença nunca esteve na ferramenta.
Esteve sempre na consciência de quem a usa.
Dizer que aprender com IA é menoridade seria o mesmo que dizer:
– que um matemático não deve usar calculadora,
– que um escritor não deve usar computador,
– que um estudante não deve usar internet.
Isso não é emancipação.
É romantização da ignorância.
O verdadeiro perigo não é aprender com uma ferramenta.
É deixar que a ferramenta pense por nós.
A emancipação não depende do meio.
Depende da postura.
Quem cresce com qualquer recurso — é livre.
Quem fica dependente de qualquer recurso — é prisioneiro.
No fundo, a diferença entre quem é emancipado e quem não é não está:
– no que usa,
– no que rejeita,
– nem na tecnologia que adopta.
Está nisto:
se continua a crescer como pessoa.
se continua a pensar como indivíduo.
se continua a ser autor da própria consciência.
Essa sempre foi — e continuará a ser — a única régua verdadeira.
Nada disto invalida preocupações legítimas sobre o uso irresponsável da tecnologia. Mas confundir ferramenta com consciência é falhar o alvo.
Nota:
Este artigo reflete apenas a minha experiência pessoal. Para mais informações, consulte o [Aviso Legal].

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