Quantas vidas cabem num corpo? O poder secreto dos videojogos como simuladores de existência
Durante anos, muita gente reduziu os videojogos à palavra “entretenimento”. Algo leve, um passatempo, uma distração qualquer. Por estranho que pareça, os videojogos nunca foram apenas isso. A verdade é que os videojogos são a forma mais avançada de simulação que a humanidade já criou — e, em certos casos, são a experiência mais próxima que temos de viver outras vidas.
A prova disso está no mundo real: pilotos de avião em formação treinam em simuladores antes e depois de pilotarem pela primeira vez ; pilotos de Fórmula 1 testam pistas virtuais antes de as enfrentar; cirurgiões praticam procedimentos complexos num ambiente digital antes de tocarem num paciente real; militares preparam operações inteiras em cenários simulados; atletas estudam jogadas em ambientes virtuais antes de as executar no campo. A ciência já sabe que o cérebro reage ao virtual como preparação para reagir ao real. A fronteira sempre foi mais fina do que imaginávamos.
E então surge a pergunta inevitável: se o mundo usa simulação para treinar profissões, porque é que continuamos a ignorar o poder dos videojogos como simuladores de identidade, emoção e experiência? Porque é que continuamos a insistir que são “apenas jogos”, quando já provaram que conseguem moldar reflexos, tomada de decisão, coragem simbólica e até autoestima?
Ver uma série como Peaky Blinders é emocionante. Mas entrar num jogo como Assassin’s Creed Syndicate e caminhar pelas ruas escuras da Londres industrial é outra coisa completamente diferente. Uma série mostra-te um universo; um videojogo deixa-te habitá-lo. Viver a atmosfera, sentir o ambiente, agir dentro dele — torna-te mais do que espectador. Torna-te protagonista.
E há algo ainda mais profundo: nos videojogos, vives múltiplas vidas sem qualquer risco real. Hoje estás no Egito antigo, a escalar pirâmides sob um sol impossível. Amanhã és um viking que atravessa mares gelados em busca de território. Depois estás numa trincheira da Primeira Guerra Mundial. No dia seguinte és um deus mitológico com o destino do mundo nas mãos. Em poucos dias, és mais coisas do que qualquer ser humano poderia ser numa vida inteira.
E apesar de não corres risco físico, tudo o que sentes é verdadeiro: adrenalina, medo simbólico, vitória, derrota, progressão, descoberta, coragem. O teu cérebro regista estas emoções como experiência. Não são memórias do mundo físico, mas são memórias da tua identidade. E isso tem um peso real.
Num mundo moderno onde a rotina apagou quase todos os arquétipos antigos — o guerreiro, o explorador, o estratega, o aventureiro — os videojogos devolvem aquilo que a vida real já não oferece. Dão-te intensidade, decisão, impacto, liberdade. Devolvem-te a sensação de movimento interno. Devolvem-te o humano que existe dentro de ti.
Os videojogos não são fuga. São ampliação. Não são distração. São laboratório. Permitem-te experimentar possibilidades que a vida real nunca te daria, enquanto alimentam o teu cérebro com rich dopamine — experiências intensas, profundas e estruturadas. Eles multiplicam a tua presença no mundo. Aumentam a tua alma.
Talvez a pergunta certa não seja “porque jogamos?”.
Talvez a pergunta seja: quantas vidas cabem em nós?
Porque cada vez que pegas no comando, uma nova vida começa — e nenhuma delas é desperdiçada.
Nota:
Este artigo reflete apenas a minha experiência pessoal. Para mais informações, consulte o [Aviso Legal].

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